Haiti e República Dominicana 2025:

De volta pra casa, mas transbordando de lá
Ainda tentando encontrar palavras para descrever tudo o que vivemos nessa última semana em nossa viagem missionária para o Haiti e a República Dominicana. Mas talvez a melhor maneira de começar seja dizendo: foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Mesmo que eu já tenha ido antes, em 2019.
Uma das coisas que mais me impactou foi perceber como, lá, parece que não existe nada entre nós e Deus. É como se o acesso fosse direto. Rápido. Natural. Aqui, em lugares como Orlando, colocamos tantas camadas — conforto, distrações, planos, estruturas — que às vezes nos distanciamos dEle sem perceber. Lá, no entanto, Deus está tão perto… tão perceptível. A gente depende dEle o tempo todo. E isso muda tudo.
E falando em presença… as crianças nos ensinam o que é sentir isso de verdade. Elas nos abraçavam com fome, com sede, com necessidade — e mesmo assim, antes de qualquer prato de comida, elas buscavam o toque, o colo, o afeto. Dormiam no nosso colo como se ali encontrassem uma paz que o lar delas, muitas vezes, não pode oferecer. E enquanto elas recebiam paz de nós, nós éramos inundados pela alegria delas. Uma alegria contagiante, viva, que transborda até em meio à escassez.
Nós vimos milagres diante dos nossos olhos. Em um dos dias, ao servir as 200 crianças no Haiti, tínhamos apenas macarrão suficiente para uma porção mínima por prato — e sabíamos que não ia dar. Até que os adolescentes disseram: “Vamos colocar duas porções.” E começaram a servir duas porções para cada criança. E sabe o que aconteceu? Deu. Para todo mundo. Ninguém ficou sem comer. O mesmo aconteceu com a água. No final do dia, cansadas e com sede, as crianças precisavam de um gole. Cada copo foi dividido em três. Depois, aquele um terço passou a servir várias crianças. E a água não acabava. Houve quem bebesse e até jogasse o restinho fora. Foi milagre. Milagre real.
Durante nossa missão na República Dominicana, vivemos algo marcante ao visitar a Maquila — uma senhora haitiana que vive num barraco simples no meio do mato, nos fundos do terreno de uma igreja. Ela e o esposo moram ali sem energia, sem água e em condições muito precárias. Maquila estava acamada, com dores fortes nas costas e sem força nas pernas. Os médicos já haviam desistido do caso dela. Na primeira noite, subimos com a equipe, oramos juntos e sentimos no coração o desejo de fazer algo por ela. Decidimos pintar a casa. No dia seguinte, conseguimos levá-la para fora da casa e oramos novamente. No segundo dia, ela já conseguiu se levantar com esforço e nos observar. No terceiro dia, quando finalizamos a pintura, ela saiu caminhando para nos receber. Foi um milagre diante dos nossos olhos. Ver a alegria dela e a transformação daquele lugar foi um presente para todos nós. Maquila não pode mais ir à igreja, mas naquele dia, a igreja subiu até ela — e Deus se fez presente.
Outro momento que me marcou foi ver nossos adolescentes — seis jovens que foram com a nossa equipe — totalmente rendidos, felizes e transformados. Mesmo sem ar-condicionado, sem água potável, sem cama confortável, sem escolha no prato… eles estavam plenos. Eles só conseguiam compartilhar coisas boas com seus pais. Viam beleza em tudo. Louvavam, adoravam, choravam, sorrindo. Eles estavam vivos. Eles estavam vendo Deus.

E não posso deixar de falar sobre os missionários locais. Johnny, Rouxinel, Kendley, Meme, Job, Stephanie, e até as duas crianças da nossa base local: Cherry (este é um capítulo a parte) e Eduardo. Que exemplo! A disposição, a alegria, a excelência no servir, o cuidado com cada detalhe… parecia que tinham 20 pessoas trabalhando, mas eram seis ou sete. Limpeza, comida, logística, carinho, tudo impecável. Eles serviam como quem serve ao próprio Jesus. E serviram mais de 200 crianças ao longo dos dias. É de tirar o chapéu — e de dobrar os joelhos em gratidão a Deus por vidas assim.
Uma das cenas mais lindas aconteceu no último dia, no Haiti, quando fizemos um culto com mais de 200 crianças no pátio da escola. Eles montaram um espaço em um corredor entre duas fileiras de pés de manga, estenderam uma lona como cobertura, e ali, debaixo de um pé de manga, a Palavra foi pregada. Foi impossível não lembrar de tudo que ouvíamos na infância sobre missões, sobre evangelho pregado sob árvores, em vilarejos distantes, sem estrutura — mas com presença de Deus e poder. Enquanto isso, em muitos lugares do mundo corremos atrás de prédios, luzes e palcos. E tudo bem, não há erro nisso. Mas ver o evangelho vivo acontecendo na simplicidade me quebrou por dentro. Ali estava Jesus, sentado entre os pés de manga.
Logo após o culto com as crianças, fomos visitar uma aluna de 6 ou 7 anos da escola que o Vida Missions mantém no Haiti. Esta criança, uma menina, havia passado por uma cirurgia na perna por conta de uma bactéria e deixado de frequentar a escola por dificuldades para andar. Durante o trajeto até sua casa, como era comum nos dias em que estivemos lá, várias crianças nos acompanharam… Sempre nos dando a mão, nos abraçando e se alegrando conosco. E qual não foi a nossa surpresa quando chegamos na casa dela e descobrimos que na verdade ela já estava entre eles, ou seja era uma das crianças que caminharam conosco após sair da escola. O grupo, surpreso e emocionado, reconheceu o milagre diante de seus olhos — a menina havia sido curada. E ela tinha participado dos três dias de VBS na escola. Em vez de orar por cura, nós louvamos ao nosso Deus, por mais um milagre diante dos nossos olhos!
Mas tudo começou na van. Cinco horas de estrada depois de sairmos do aeroporto de Santiago na República Dominicana até a fronteira com o Haiti. Pessoas que se conheciam pouco, talvez de vista, começaram ali a compartilhar expectativas, histórias, dores, sonhos. Fomos nos conectando, virando família. Os devocionais diários nos moldaram. Os momentos de partilha à noite nos uniram. E o Espírito Santo foi entrelaçando nossas vidas com propósitos eternos.

Quando cruzamos para o Haiti, já éramos Corpo. Cada um servindo em um canto, com liberdade, mas com cumplicidade. Tinha algo no ar: “estamos juntos nisso. O que você faz lá, reflete aqui. Somos um.”
E no caminho de volta para a base, naquele último dia, o Senhor nos presenteou de novo. Estávamos há dois dias sem banho, sem água, e alguns momentos sem energia elétrica. O corpo, exausto. A mente, drenada. Mas o espírito… ah, o espírito estava vivo.
E então veio a chuva. Uma chuva gostosa, refrescante, inesperada — mas ao mesmo tempo, absolutamente necessária. Ela caiu sobre nós como quem diz: “Eu ainda estou aqui. Eu vejo vocês.” Foi uma visitação. Daquelas que não se explicam, só se sentem. A água escorrendo no rosto, nos braços, limpando não só o suor, mas renovando a alma.
Rimos. Celebramos. E encerramos aquele dia como crianças de Deus mesmo: tomando banho de chuva, e comendo… Os missionários locais nos serviram uma bandeja enorme de mangas…talvez, foram as mangas mais doces das nossas vidas. Foi delicioso. Foi eterno.
E, no fim, foi isso que o Senhor nos mostrou: que Ele mesmo escreveu uma história nesses dias. Uma história feita de abraços, lágrimas, gargalhadas, louvor, milagres e serviço. Ele nos visitou. Ele nos alinhou. Ele nos revelou propósitos. Ele nos usou. Ele nos curou.
E Ele continua escrevendo… porque missão não termina quando o avião pousa de volta. Missão é estilo de vida. É enxergar Deus perto — aqui, como lá.
Obrigado, Senhor, por tudo. 🙏
Pr Cléber Zubi
